hoje eu tive que ir

17 de maio de 2016

Hoje eu tive que ir. Acordei atrasada, já eram 9:12, o relógio batucava e a cafeteira lembrava um som da minha infância. Nunca fui de me preocupar com cinco minutos a mais, mas hoje, terça-feira dia 23, eles ficaram insuportáveis, se alongaram e me fizeram fugir. Não sei se foi a chuva que caiu durante a madrugada, ou os gritos vindos da rua... talvez tenha sido o gato do vizinho que miava alto demais e me deixou deprimida, ou talvez, tenham sido só minhas lembranças dentro de algum buraco no meu peito querendo sair. Pelo menos as lágrimas não vieram, te poupei de um tsunami. Hoje eu tive que ir. A música nos fones trepidava meus pensamentos e quase me fez desistir. Um pouco de medo e coragem misturados com impulso foram a gota d'água. Hoje eu tive que ir. E preciso lhe dizer: a culpa não foi sua, nem minha pra ser sincera. A culpa talvez seja do violão quebrado no meio da sala, ou da lâmpada amarela que me fazia franzir a testa ao ler Kafka. Pode ser que eu tenha cansado de ser, pode ser que eu me transforme, me metamorfoseie, vire bicho ou lixo. Ou não, pode ser que eu continue sendo, vendo, tendo e morrendo um pouquinho a cada dia. Mas, quem não? Hoje eu tive que ir. E posso te dizer: a escolha não foi minha, foi algo dentro de mim que me expulsou de mim. Consegue entender? Talvez seja grave e eu me depare com um precipício ao abrir a porta. Talvez não, e eu me encante com um jardim cheio de tulipas vermelhas. Eu gosto de vermelho mas não consigo lidar com a sensação que ele me traz. É a mesma coisa com você. Será que você consegue me entender? Eu nem pediria tanto, nem eu mesma consigo na maior parte do tempo, da vida.

Isadora Markus

Foto: Pinterest

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