CICATRIZES

18 de janeiro de 2016

Às vezes a vida chega e te empurra para bem longe daquilo tudo que você sonhou. Você tropeça, cai, chora e fica lá, deitado, estirado por dias. Aí vem aquela coisa linda que Caio F. Abreu chama de impulso vital e te coloca lá em cima, num pedestal e vai de você se equilibrar ou não. Você cambaleia, vai prum lado, vai pro outro e de repente tá lá fazendo acrobacias sem balançar. O dia nasce, o verão chega e você percebe que o que você sonhou, não passou mesmo de um sonho e que sonhos são assim mesmo, para serem sonhados e esquecidos. Você descobre a realidade e vê que ela pode sim ser muito mais dura do que você pensa, mas não tem perigo de ser apagada, deletada como um arquivo velho de computador. Mas, não é por isso que você para de sonhar, dia vai dia vem, sonhos vão e vem como uma auto estrada movimentada, alguns carros se encontram, outros desencontram, uns passam batido, enquanto outros batem em você com tanta força que é impossível não deixarem uma marquinha, que por mais pequena que seja fica ali, na lata, na carne, que nem cicatriz. E são dessas cicatrizes que construímos nossa realidade, nossos dias e nossas verdades. Quando dá por si está no alto de seu pedestal rindo e não mais chorando, e o melhor: fazendo os outros rirem. Fazer palhaçada é um dom, rir de você mesmo também, mas vocês já devem saber disso, já devem saber também que a vida é boa demais para se desperdiçar com horas de tristeza. Você começa a olhar pro mundo com outra visão, recupera sua vida, sua realidade, seu eu e passa a se encontrar novamente. Encontra seu riso, seus medos, suas manias, suas vontades, seus anseios, suas certezas e até as incertezas. E é assim, do seu jeito que começa a trilhar um caminho diferente, uma estradinha meio torta, toda desengonçada, com pedras soltas, mas ainda assim é a sua história. E a conclusão que tira disso tudo depois de um tempo é que a vida é sua, e que as coisas estão certas sim, mais certas do que nunca e acaba acreditando naquele velho ditado de que "foi melhor assim", sempre é melhor assim. Tudo aquilo que você faz, diz e sente é tão digno e maravilhoso que merece ser vivido o mais intensamente possível. A dor de um machucado, a gargalhada de um fim de semana, a ressaca do outro dia, o corpo cansado de caminhar e um sorriso maduro nos lábios. Maduro, mas com a graça daquela criança que está inesgotavelmente pulsando dentro de ti. O que eu quero dizer é que o mundo tem várias faces e cabe a você passar e olhar bem dentro dos olhos de cada uma delas, até que um desses olhares te toque tão profundamente e te modifique. Te modifique e ao mesmo tempo te deixe estar, te deixe falar besteiras e agir como criança, te deixe chorar e te de colo, te queira bem e te queira como é, sem máscaras, sem rímel, sem porquês, sem mais. E como diriam os Paralamas do Sucesso "e são tantas marcas que já fazem parte do que eu sou agora, mas ainda sei me virar", e que Sucesso. Não importa quantas marcas você tenha, tem sempre outra esperando para te pegar desprevenido. Aceite, e se o acaso for mais forte, deixe estar. A vida é feita de grandes e pequenas histórias, um capítulo de cada vez e no final com certeza vai ter valido a pena. Meus sinceros muito obrigadas a todas as minhas cicatrizes e a quem as deixou, elas são o que de mais precioso eu tenho, minhas lembranças, minha vida torta e sinuosa.

Isadora Markus


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